terça-feira, 21 de outubro de 2008

Seis Graus de Separação

Como a falta de criatividade se aliou à falta de tempo para impedir que eu me concentrasse a criar um bom texto com subjetividades, duplas interpretações ou confidências que a ninguém interessa, resolvi escrever um pouco sobre algumas coisas que eu acredito.
Acredito na raça humana e em uma possível salvação pras mazelas do mundo. Acredito que existem, sim, políticos honestos, e que a Sandy continua virgem, mesmo depois do casamento. Acredito em duendes, pois só a existência deles pode explicar os desaparecimentos de nossos objetos, mas não acredito mais em Papai Noel, cegonha e Coelhinho da Páscoa, e fico até meio deprimido ao ver que as crianças, como meu irmão, deixaram de acreditar neles bem mais cedo que eu.
Mas sobretudo acredito numa teoria matemática-social chama Teoria dos Seis Graus de Separação. Alguém deve ter pensado: "Puts! Lá vem ele com mais uma teoria matemática chata pra postar no blog", mas acalmem-se, garanto que essa é bem mais interessante de ser lida.
A teoria surgiu em estudos científicos na Universidade de Columbia e foi publicada na Revista Science, e a partir daí virou mote para peças de teatro, filmes, séries (a principal delas homônima à teoria, produzida por JJ. Abrams, criador de Lost, que também se utiliza dessa teoria), jogos onlines e redes de relacionamento (incluindo o Orkut).
Mas enfim, sobre o que é esse estudo? Bem, ele tenta explicar o que já é de conhecimento público: O mundo é pequeno!
Pra provar isso fizeram o seguinte: estipularam pessoas entre as quais um inspetor de arquivos na Estônia, um consultor de tecnologia na Índia, um policial na Austrália e um veterinário do exército norueguês e entregaram cartas destinadas a elas a outras pessoas, completamente distantes geografica e culturalmente. Assim a pessoa que começava com a carta nas mãos enviava ela a um amigo que achava que poderia ser próximo da determinada pessoa, que enviava para outro amigo, mais próximo, e para outro e outro, até que a carta chegasse ao destino esperado. O resultado foi inesperado, pois foi necessário que a carta passasse por, em média, 6 pessoas, desde o início ao destino.
Daí o nome da teoria: Seis Graus de Separação. Não é difícil acreditar quando se usa a matemática para comprová-la. Digamos que você tenha dez amigos (esse é um número baixo estipulado pelos estudiosos americanos, que talvez não tenham um círculo social tão grande), e cada amigo seu tenha mais dez amigos, e cada um desses amigos de amigos tenham mais dez. Quando chegarmos aos 6º grau, teremos 10 elevado na 6ª potência, o que daria um milhão de "amigos". Agora se formos adaptar às nossas realidades, e adicionando a essas pessoas o que se chamam de hubs (pessoas com um número muito grande contatos, como os próprios jornalistas) então nossa rede de contatos é infinitamente maior, logo, é bem possível que a teoria seja realmente verdade. Eu pelo menos acredito!
Isso explicaria, segundo os estudiosos, fenômenos como a moda, comportamentos de mercado e epidemias. Não é realmente interessante?

Eu me interessei por essa teoria ao ver como entre nós mesmos, colegas, descobrimos o quanto estivemos próximos, até mesmo por um grau de separação, antes mesmos de nos conhecer:
*Eu ouvia falar bem do Bibs quase todos os dias, através de uma senhora que trabalha no meu antigo colégio e que é quase uma vó adotiva para ele. Confesso que fazia uma imagem completamente diferente dele e no entanto hoje estamos aqui, até morando juntos!
*Eu conheço um tio-avô (?) da Liana, lá de Dom Pedrito, e além disso meu tio lecionou por muito tempo na UfPel, logo devem haver mais ligações das quais não sabemos.
*Lara e Gian, embora não se conhecessem, tinham muitos amigos em comum!
*Caren e Gian tinham um amigo em comum antes de se tornarem colegas.
*A tia Deise, mãe do João (sim, até o João que é de outro estado tinha algum tipo de ligação, vejam) morou em Cachoeira, logo deve ter conhecidos em comuns com Ananda e Panka!
*Lara e Bibs descobriram anteontem que tinham dois conhecidos em comum, também.

E há também dois casos de contato direto!
*Panka e Ananda se conheciam de Cachoeira, embora talvez não se gostassem muito.
*Lara e Benaduce também se conheciam, daqui de Santa Maria.

E essas são apenas as ligações que descobrimos sem nenhuma pesquisa aprofundada.
A mim, pelo menos, essa teoria é totalmente válida e correta. Hoje mesmo descobri, sem querer, que tenho ligações de primeiro ou segundo grau com Suzane von Richthofen, Ana Carolina Jatobá, Alexandre Nardoni e Lindemberg Alves. Dá medo, não!?
Mas nem tudo são lástimas!
Certa vez, também despropositalmente, descobri que eu e duas pessoas que depois se tornaram grandes amigas visitamos no mesmo 1º de janeiro a Cascata do Caracol, e descemos as escadas que davam para o fim da queda d'água praticamente na mesma hora, ou seja, antes de nos conhecermos já havíamos nos cruzado, sem que um tivesse consciência do outro, em uma escada enferrujada que dava para um lugar tão bonito. É quase poético, não!?
E tem outra, vejam só! Já descobri também que tenho duas ligações de primeiro grau com Sílvio Santos! Má oe! Quem quer dinheiro?
Enfim, me alonguei demais, mas eu queria apenas compartilhar essa minha maluquice de ficar sempre procurando ligações infinitas entre as pessoas.
Quem sabe tendo conhecimento dessa teoria adquiramos, finalmente, a consciência de que fazemos parte do mundo, de algo maior que alguns chamam de Deus e eu chamo de Destino. E que nós, caros colegas, descubramos juntos até onde esse Destino vai nos levar. Espero que "ao infinito e além", e sempre acompanhado de vocês!

Texto postado no Blog Primeiro Ponto

P.S.: Eu menti! Não acreditava que a Sandy era virgem nem antes do casamento, quanto mais agora! ahahah

sábado, 18 de outubro de 2008

Sobre o Gosto da Teia

Era muito sedutora.
Quieta, silenciosa, mas nem sempre. Quando necessário os membros se moviam rápido, frenéticos, hábeis.
Os olhos fitavam a tudo e a todos, e não à toa!
Sua cor não era habitual, era diferente de todas as demais, era única!
Seria uma bela amante, não fosse o fato de ter oito patas.
Quanto cuidado deveria ser desprendido a um ser tão delicado? E aquele medo de que o menor ato pudesse ferí-la mortalmente.
Delicadeza um tanto quanto relativa. Ela mostrou-se mais forte que ele, afinal, agora era ele que estava preso.
Aproximara-se demais para conferir o desenho das teias, e quando deu por si estava totalmente enredado. Quanto mais se debatia contra o seu destino, mais preso ficava.
Ele viu ela se aproximando lentamente, e agora parecia bem maior do que a princípio. Ela trabalhando sem preocupação, como se a cabeça estivesse à muitas teias dali. As patas finas mas fortes indo em todas as direções, tecendo, tecendo.
A teia entrando na boca dele. E que gosto! Parecia doce, mas diferente de tudo que ele já provara. Era ótimo por ser único.
Ela foi rápida, porém. Totalmente envolto em um casulo, ele já estava conformado com seu destino. Ficar ali, imóvel, até que ela quisesse, até que a fome a fizesse devorá-lo, ou então nada.
O nada, simplesmente.
Ele sem ações, sem atos, só sensações. Mais nenhum grito, mais nenhum movimento, a não ser pra se livrar daquele desconforto habitual de quem está suspenso.
Mas aquele gosto... ah, aquele gosto valia qualquer sacrifício.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

E de repente esse bucolismo

E de repente esse bucolismo.
E de repente esse medo da solidão, da ausência da parte de si mesmo que ficou no outro.
E de repente essa sensação de ser incompleto, mas não apenas no agora, e sim no antes e no depois.
E esse nó na garganta que tanto me irrita? Esse grito que cala por vergonha, mas que não pode impedir que esses longos dedos escrevam essas palavras.
Hoje era pra ser um dia cinzento, mas teimamos em colorí-lo demais. Talvez por castigo agora vejo tudo em preto-e-branco.
Essa auto-piedade me enoja, mas eu não quero ser altruísta agora! Não agora! Quero o egoísmo mais venenoso, quero esquecer as mazelas do mundo e pensar só em mim, em como estou sendo estúpido. Estou irritado pois eu poderia ir dormir sem escrever tudo isso no blog, mas essa necessidade de chamar atenção se torna mais forte que meu senso de ridículo.
Me vejo no futuro, recordando esse momento como se fosse uma foto envelhecida, e rindo com escárnio desse sofrimento infantil. Serei um velho sarcástico e não tenho certeza se é isso que eu quero.
Mas enfim me sinto livre. O nó da garganta se desfez.
Agatha Christie, uma de minhas escritoras favoritas, certa vez disse: "Eu gosto de viver. Já me senti ferozmente, desesperadamente, agudamente infeliz, dilacerada pelo sofrimento, mas através de tudo ainda sei, com absoluta certeza, que estar viva é sensacional." É, Agatha... você tem razão.
O viver é uma experiência inesquecível.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Sobre a Consciência de Ser

Ela está sozinha nesta noite, nenhum som perturba a calmaria da sua sombria sala de estar. O abajur de canto lança uma luz avermelhada sobre o seu rosto, assim como sobre um prato de frutas abandonado na mesinha de centro. De repente ela perdera a fome.
Está ali, sentada, na doce contemplação de ver o rápido escurecimento da maçã picada, enquanto sua mente divaga sobre coisas que jamais seria possível explicar aqui em palavras.
De repente, como se uma força imensa a tivesse dominado, ela levanta do sofá, desliga o abajur e corre para o quarto.
Abre as gavetas com força, tira as primeiras peças íntimas que suas mãos encontram (uma calcinha preta e um sutiã rosado) e caminha de pés descalços até o banheiro.
Liga as luzes, despe-se da roupa que carregara o dia inteiro, deixando-a cair sob seus pés e olha-se no espelho. Pergunta-se se ainda seria bela o suficiente. Seu rosto esboça um sorriso fraco, mostrando um olhar doce e submisso perante seu reflexo.
Então ela tem daqueles impulsos que são difíceis de explicar. Apaga as luzes do banheiro e assim, no escuro, mesmo, liga o chuveiro. Há apenas uma fonte de claridade, vinda da pequena janela de vidro jateado, no lado oposto da peça. Assim ela começa o banho. Vê o vapor subindo lentamente, envolvendo seu corpo como uma seda branca, um véu transparente.
O sabonete escorrega em seu corpo com uma delicadeza que ela nunca sentira antes. A água escorre em seu rosto com a velocidade das lágrimas mais desesperadas.
A sensibilidade aflora em seu corpo. Sobe-lhe um nós na garganta, uma vontade de chorar e de gritar, e só não se atreve a tal porque sabe o quanto isso seria despropositado. Que motivo teria?
Sai do banho e passa a toalha áspera pelo corpo, veste a calcinha, cuidando para não deixa nenhum pelo pubiano aparecendo, e de repente sente-se tola. Sente como se estivesse vestindo-se para o amante mais esperado de sua vida, mas... ela ocupará a cama sozinha essa noite, assim como vinha fazendo nos últimos dez anos de sua vida.
Pega o secador em um armário e começa a secar seus cabelos ruivos. Os olhos fixam-se na imagem embaçada do espelho. Ali refletida está sua alma: sem definição, sem contorno, sem forma e conteúdo. Apenas algo que existe sem ter um porquê.
Sente as lágrimas vindo-lhe, enfim. A solidão lota o recinto, lota seu corpo. Chorando, escova os dentes. Engasga-se com o creme dental e acaba a escovação antes de sentir sua boca realmente limpa.
Ainda de pés descalços vai para seu quarto. Analisa-se no espelho que está em um canto, meio que escondido por um cabideiro, como se tivesse vergonha de se mostrar para sua dona, vergonha de refletir uma existência tão triste. Olha-se e nota o quanto na verdade foi descuidada na escolha da roupa de suas núpcias solitárias: "Uma peça de cada cor!?"
Vai até a gaveta e revira tudo, até achar o sutiã que combinava com a calcinha. Tira o que vestia e antes de colocar o outro, olha-se novamente no espelho. Hun, havia o exame de mamas, vira na televisão que era necessário fazê-lo sempre. Começa, então, na frente do espelho, a apalpar-se. Nada no sei esquerdo. Continua a apalpar-se. Nada no direito, felizmente. Mesmo assim, continua a tocar-se. Vê que no rápido exame seu corpo reagira, sua pele arrepiara.
Ali, de seios descobertos em frente ao espelho, prossegue a olhar-se como fizera rapidamente no banheiro. Sim, definitivamente ainda era bonita. Seus olhos castanhos ainda emitiam um brilho de vivacidade e de malícia, sua boca ainda arqueava-se ainda em sorrisos provocadores. Seu corpo não continuava como há quinze anos atrás, é verdade, ficara um pouco mais gorda, mas continuava nas proporções ideais para uma mulher de sua idade.
Sente então uma necessidade de ficar nua completamente e sem pudor. Se em quarenta e cinco anos não aprendera a conviver com seu corpo e não entendia sua alma, como ainda vivia? Precisa ficar nua, e fica. Tira a calcinha e atira-a na maçaneta da porta (em qualquer outro dia ela teria se censurado por esse ato pouco higiênico).
Lembra-se do falecido marido, único homem a quem se entregara, mas que já não estava mais ali para aquecê-la em noites frias. Eles haviam se envolvido em um acidente de carro, dez anos atrás. Ela, de cinto, sofrera apenas um corte no joelho, onde ficou uma cicatriz em forma de sorriso, que ela fazia tudo para esconder. Ele, sem cinto, morrera na hora. Desde então apenas ela dorme na confortável cama de casal.
Deita-se, deixando seu corpo escorregar pela colcha colorida. Mais uma recordação lhe ocorre, mas essa tão dolorida que ela fez de tudo para esquecer novamente.
Sua mão esquerda começa a deslizar pelo corpo. Barriga, seios, pescoço, nuca. A outra estaciona entre suas pernas. Seus dedos com unhas sem pintura começam a fazer movimentos tímidos, calmos. Há muito tempo não fazia aquilo.
Sente que ainda vivia, que enfim não morrera no acidente e nem de tristeza e solidão.
Os movimentos da mão direita ficam um pouco mais rápidos e ela sente a auréola de seus seios perceberem o estímulo.
Neste momento ela faz aquilo por dois sentimentos antagônicos: a vontade de satisfazer seu corpo e a necessidade de se humilhar, pois sim, ela faz isso em frente ao espelho apenas para ver seu rosto contorcido de prazer chorar. Chorar de saudade do marido e de vergonha, como se ele ali estivesse a olhando de forma acusadora. Sem entender a si mesma, ela resolve humilhar seus fantasmas, também. A culpa era dele se ela estava sozinha. Ele a abandonou e ela precisa prová-lo que não sentia mais sua falta.
Masturba-se agora com mais velocidade, com mais força, violência, até. Quer inflingir em seu corpo toda a sua angústia e desespero.
É nesse momento que a porta se abre. Ela vê, espantada, o rosto de seu filho, de dezessete anos ,surgir pela fresta da porta.
-Mãe, eu cheguei - ele diz, milésimo antes de olhar para dentro do quarto.
Os olhos dele fixam-se, espantados, na estranha e inesperada figura que se contorcia na cama. Não entende de primeiro o que se passa, mas assim que seu cérebro processa o estranho espetáculo, um soluço escapa-lhe pela garganta. Ele dá um passo para trás e fecha a porta com uma batida forte. Caminha a passos largos para seu quarto e, com mais força ainda, bate mais essa porta.
Ela fica ali, estática na cama. As pernas ainda levantadas, a mão ainda sobre suas intimidades. Era como se qualquer movimento fosse fazer com que ela percebesse que o que acabara de se passar tinha sido real.
Mas assim que baixa as pernas e cobre-se instintivamente, notou que sua atitude e seus sentimentos não eram o que esperava. Ela não sente vergonha. Sente raiva. O que ela vira de relance nos olhos de seu filho não seria a mesma repreensão que ela imaginava ver nos olhos do fantasma de seu marido? Que culpa tinha ela de ainda sentir desejo, de ainda estar viva?
Desde a morte de seu marido, sentiu-se consciente do que era. Consciente de sua existência.
Então faz algo que não se julgava capaz. Descobre-se novamente e recomeça a masturbar-se. Exagera em seu prazer, emite gritos que não se julgava mais capaz de dar, com a cruel esperança que seu filho escutasse.
Agora ele tinha que entender que ela não era apenas aquela que lhe sustentava e cuidava. Ela tinha também que cuidar de si.
Os movimentos mais rápidos, os gemidos mais altos.
É essa a maneira que ela tem de mostrar ao mundo que sim, ela iria mudar. Deixaria seu altruísmo de lado. Nesse momento é o mais egoísta que pode. Não pensa no filho, no que ele sente nesse momento. Ela quer o direito de suspirar de êxtase, e não só de cansaço.
A partir do próximo fim de semana iria começar a sair, ir em festas com suas amigas, aproveitar o resto de beleza que ainda lhe restava. Mudaria. Era necessário.
O último grito foi seguido por um silêncio que a assustou. Cobre-se novamente, sentindo o rubor subindo suas faces e confundindo-se com seus cabelos ruivos. O que fizera, afinal? O que deveria fazer no outro dia? Não queria essas respostas.
Talvez elas nem existissem.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Sobre o Amargor Matutino

“Mas, hey, mãe, alguma coisa ficou pra trás...

Antigamente eu sabia exatamente o que fazer”


Por mais agradável que tenha sido a noite, a manhã é sempre amarga. Essa é uma constatação bem óbvia, na verdade. É sempre assim. Você acorda, às vezes de bom humor, às vezes não, olha-se no espelho, vê seu rosto desconfigurado pelo sono e, dependendo do seu humor, sorri. Escova os dentes, afinal tem que prezar pelo sorriso sempre belo, por mais forçado que ele possa ser, e lava o rosto. Então vem o amargor. Por mais doce que seja o café, o suco, a fruta, sempre sentirá o amargo causado pela doçura do creme dental, na primeira mordida, no primeiro gole. Não deveria ser assim, mas é. O gosto bom do novo dia dura tão pouco. Assim é a vida. Iludimo-nos por uma doçura tênue e esquecemos que o amargor logo virá. Sempre vem! Mas nessas manhãs é bom saber que logo nosso paladar voltará ao normal. Os gostos bons acabarão se sobressaindo! Afinal talvez os amargores da vida sejam necessários pra que possamos continuar sorrindo.


“Mas, hey, mãe, por mais que a gente cresça

há sempre alguma coisa que a gente não consegue entender.”

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Ele, 29, Ela, 61

Ele, vinte e nove anos e oito rugas cortando-lhe a face.
Ela, sessenta e um anos e três diferentes tipos de creme facial na necessaire.
Ele, roncando com a cabeça encostada na poltrona de couro rasgada em um ônibus que sacolejava em uma estrada de terra.
Ela, sentada numa mesinha de metal em uma lancheria suja de rodoviária, tomando cerveja quente.
Ele, com o orgulho ferido.
E Ela não tendo do que se orgulhar.

O chamaremos pelo nome artístico, Palhaço Maroto, embora ele o deteste
A chamaremos de Avó, pois é esse o papel que ela emprega nesse momento.

Maroto volta pra casa, depois de oito anos longe. Como já disse esse prolixo narrador, Ele traz consigo oito rugas, e mais nenhuma causada por um eventual sorriso. Já não sorri há muito tempo, pelo menos não com vontade. Ele retorna para o interior, para o lugar que jurou que nunca mais pisaria, quando brigou com seu pai. Maroto viajou para a cidade grande, onde acabou por ver-se passando fome. Esmolou e com o dons administrativos que Deus lhe negou, resolveu abrir seu próprio negócio: divertir as pessoas. Para isso comprou três bolinhas coloridas e dois tons de maquiagem facial, e desde então virou malabarista de rua. As moedas que raramente ganhava nos semáforos não lhe compravam nem pão suficiente, nem dignidade. Morou embaixo de uma ponte por alguns meses, até fazer amizade com outro malabarista que lhe ofereceu um teto decente: um barraco de compensado com telhado de folhas de zinco, em uma favela afastada, e ele considerou isso um progresso. E assim Ele viveu por oito anos até o seu amigo morrer, atropelado por um motociclista. Maroto viu-se novamente passando fome. E por isso agora Ele volta.

Avó espera os netos na rodoviária. Netos, estes, que são sua única razão de viver. Não fosse por eles, Ela já teria tomado vários daqueles comprimidos de tarja preta que ocupam uma gaveta no seu quarto, afinal nem em Deus ela acredita mais, mas ela não quer envergonhar os netos. Os filhos, destes já nem lembra. São tratados apenas como mais um móvel dentro da casa. Interesseiros são esses filhos que a respeitam apenas por questões financeiras! Ela os repudiava, talvez pelas lembranças que lhe trazem. São a cara do pai, um homem grosseiro que durante a gravidez do último filho, a bateu. Esse homem tivera várias amantes e, não mais que de repente, foi misteriosamente morto a tiros num bar vazio, numa noite fria.

Maroto e Avó não se conhecem. Ainda.

Mas agora o ônibus já chegou na rodoviária e Maroto desce as escadas ainda cambaleante de sono e tirando remelas dos olhos. Ele não está caracterizado. Traz em si uma roupa meio suja pelas 17 horas de viagem e, é desnecessário dizer, rasgada pelo longo tempo de uso. Maroto sente-se mal, inclusive fisicamente. Traz a sensação de que as nádegas estão molhadas de suor, na melhor das hipóteses. Maroto vai ao guichê nº 5 e é surpreendido ao saber que o preço da passagem aumentara substancialmente, e que ele não conseguiria pagar com o pouco que tinha. Decidiu que pela última vez em sua vida iria se caracterizar novamente. Vai ao banheiro da rodoviária e troca-se com pressa, mas não sem antes sujar mais o já tão imundo vaso sanitário. Olha no relógio e nota que tem 20 minutos para conseguir os seis reais que lhe faltam, e isso lhe parece dificílimo. Então ele olhou para dentro de uma das lancherias e viu uma senhora parada. Até parecia sua finada mãe, não fossem os anéis e colares brilhantes que trazia consigo. Ela parecia a única capaz de lhe dar uma esmola que não fossem meras moedas.

Avó viu o Palhaço ao longe. Ele a olhara e se agora se dirigia à entrada da lancheria, e no momento que ele foi rapidamente ocultado por um pilar, Ela aproveitou para tirar dois dos seus anéis e colocar no bolso, para diminuir o prejuízo, caso fosse um assalto.

Ele chegou na frente dela, tirou o chapéu, fez uma reverência e começou, ali mesmo, a fazer malabarismos. Nem uma palavra, nenhum som. Mas por um breve momento ela olhou, com seus olhos de azul safira, nos olhos dele e viu que eram tristes, embora a boca sorridente mostrando dentes tortos e amarelados lhe dissesse o contrário.

O dono da lancheria, ao ver a cena, temeu perder tão distinta cliente, caso a velha se assustasse, e, aos empurrões, tirou Maroto do estabelecimento. Depois o gordo microempresário voltou na mesa para desculpar-se com Avó, mas ela não lhe deu ouvidos. Deixou uma nota na mesa e saiu correndo na velocidade que suas pernas cheias de estrias permitiam, atrás do palhaço.

Maroto desistira após a investida do gordo dono do buteco. Resolvera que iria dormir na rodoviária e fazer seu show no outro dia, quando esta estivesse bem movimentada. Por isso agora ele está a trocar a roupa, tirando a roupa de trabalho e colocando aquela que lhe serve de traje de gala e de pano de chão.

Foi nesse momento que Avó entrou no banheiro...

À princípio Ele não a viu. Ela, sim, o viu. Viu e relembrou sua juventude, o prazer que apenas uma vez sentira, antes do casamento. Sim, fora apenas uma vez, ela lembrava bem. Fora uma moça à frente de seu tempo. Transara antes do casamento com aquele que viria a ser seu marido. Ele a fez sentir coisas que jamais sentira, nem quando brincava consigo mesma nas tardes frias, durante a adolescência. Sim, fora aquele único dia de prazer que fizera ela se apaixonar por aquele homem horrível. Nunca mais uma transa deles seria tão boa. Na lua-de-mel ele já mostrou que jamais voltaria a ser o amante carinhoso e delicado que havia sido uma vez. Ele era promíscuo e violento. À princípio ela achara exótico, mas até mesmo o exótico torna-se nojento com a rotina. Mas era naquela sua primeira transa que Avó lembrava agora.

Maroto assustou-se ao ver a velha parada atrás de si. Sua nudez, sua vergonha exposta à uma desconhecida. Ele por um momento lembrou-se de sua primeira transa, também. Fora no início de sua adolescência. Seu pai, aquele homem repugnante a quem Ele agora iria rebaixar-se e pedir ajuda o levara à uma dessas casas em que o dinheiro faz o prazer, para ter certeza que seu filho não era um boiola. Seu pai escolhera a mulher com quem Ele deitaria. Não era a mais bonita, nem a mais delicada. Era a mais fogosa. Seu pai conhecia muito bem todas as mulheres daquele local para saber muito bem com qual seu filho deveria deitar. E escolhera pessimamente. A mulher deveria ter uns trinta anos a mais que Maroto e fora fogosa demais, a ponto de assustar o rapaz. Durante toda a sua vida ele lembraria como o prazer havia sido substituído pelo medo, naquela noite. Lembrou também do rosto de sua mãe ao ver ele e o pai chegando em casa, ambos com cheiro de estábulos e mulheres que usavam perfumes para disfarçar o cheiro de vários amantes numa só noite.

Naquele banheiro Maroto reparou que Avó era muito parecida fisicamente com sua primeira mulher. Avó reparou que Maroto era muito parecido fisicamente com seu marido, aquele em que por uma noite amara, durante a juventude.

Não houve nem sequer uma frase. Avó se perguntaria mais tarde o que a levara a adiantar-se para aquele corpo nu, aquele rosto pintado e sem expressão, que vira apenas uma vez em sua vida, nem três minutos antes. As mãos enrugadas deslizaram pelo corpo não tão formoso do palhaço. Ele, assustado, viu uma chance de provar que não tinha medo da experiência que essas mulheres mais velhas têm.

Despiu Avó com as mãos trêmulas, e nem por um momento o fato de estar prestes a transar com uma velha desconhecida num banheiro público pareceu-lhe estranho. Estava acostumado com a promiscuidade da vida das pessoas que vivem na rua.

Eles transaram ali mesmo, sem nem um porquê. Os pés descalços pisavam nas sujidades alheias no chão do banheiro público. O espelho rachado na parede refletia rostos de desconhecidos que por um momento se amavam. O prazer das recordações. O calor vindo do frio dos azulejos. As roupas jogadas sobre uma poça de urina. Tudo parecia dar um ar irreal na cena. Aquilo obviamente era um sonho dos dois, algo impossível de estar acontecendo.

As mãos de maroto passavam pelo corpo flácido da Avó. As mãos da Avó passavam pelo corpo rígido de Maroto.

Então acabou. Sim, rápido. Não deve ter durado mais de dez minutos, mas certamente os dois haviam chegado ao êxtase. Ela vestiu suas roupas rapidamente, mesmo sentido que a urina do chão agora estava nas suas costas. Ele ficou ali, sem saber o que fazer. Virou-se para o espelho e viu seu rosto, sua maquiagem de palhaço borrada. Ele sentiu que essa senhora poderia ser a salvação de sua vida.

Enquanto isso Avó acabava de calçar suas sandálias. Sentiu então um volume nos bolsos. Os anéis. Sentiu também que poderia ser a salvação da vida desse rapaz, e talvez ele da sua, mas tinha vergonha de lhe dizer isso.

Num gesto de extrema bondade, talvez, ou de vergonha por ter desfrutado de um corpo que não deveria jamais ter lhe pertencido, Ela pôs os anéis no bolso da calça de Maroto. Saiu correndo porta afora, com vergonha de si mesma, uma lágrima borrando-lhe a fina maquilagem. Teria que arrumar uma desculpa para não ter esperado o horário do ônibus dos netos. Diria, talvez, que se sentira indisposta pela cerveja quente, ou algo assim.

Maroto vestiu-se. Na perna esquerda da calça uma mancha escura que ele constatou pelo cheiro, ser merda. Limpou seu rosto da pintura que escondera a sua face da velha amante e saiu do banheiro. Nos primeiros passos fora dali foi abordado por um policial. Este vira uma velha saindo chorando do banheiro masculino e tirou a conclusão de que fora assaltado. Apenas com as palavras “Parado, Vagabundo”, o guarda atirou Maroto contra a parede, o rosto dele ao lado da plaquinha apontado para o Ponto de Táxi, e começou a revistá-lo. Não foi difícil achar os anéis no bolso. Deu um soco nas costelas do meliante e só disse um “Tá preso, filho da puta”. Maroto ao ver os anéis na mão do policial assustou-se, como seria de se esperar. O instinto fez com que empurrasse o policial e saísse correndo. Não devemos chamá-lo de burro, pois sabemos que os animais têm muito desses atos inesperados.

Também não julguemos o policial que desferiu três tiros nas costas de Maroto. Ele estava já a um passo de perder seu emprego, por irresponsabilidades anteriores. Ele tinha uma mulher e filhos para alimentar. Se a velha desse queixa do sumiço dos anéis que pareciam de tanto valor e ele tivesse que confessar que deixara o meliante escapar, certamente seriam estas suas últimas palavras no emprego.

Maroto bateu com o rosto numa lata de lixo, e depois caiu no chão. Um pouco da maquiagem que não fora bem limpa, atrás da orelha, ficou suja com sangue. Morreu sem ter que se rebaixar ao seu pai, ao menos.

Avó, meses depois, tomou vários daqueles comprimidos de tarja preta que ocupavam uma gaveta no quarto. Peço desculpas àqueles que ainda queriam ver algum romantismo nesse conto. Não o fez por querer morrer junto com aquele que lhe relembrara o que era o amor, nem tampouco por peso na consciência. Ela se matou ao ver um de seus netos padecer pelo consumo de cocaína e ver que o outro neto casara-se, fora viver no exterior e não lhe escrevera um postal, lhe dera uma ligação sequer por meses. Sentira-se inútil.

A morte lhes salvara de uma existência triste, talvez. Talvez eles pudessem ter salvado um da existência triste do outro. Mas de que adianta divagar sobre isso agora?

Assim é a vida. Assim é a morte.