sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Sobre a Consciência de Ser

Ela está sozinha nesta noite, nenhum som perturba a calmaria da sua sombria sala de estar. O abajur de canto lança uma luz avermelhada sobre o seu rosto, assim como sobre um prato de frutas abandonado na mesinha de centro. De repente ela perdera a fome.
Está ali, sentada, na doce contemplação de ver o rápido escurecimento da maçã picada, enquanto sua mente divaga sobre coisas que jamais seria possível explicar aqui em palavras.
De repente, como se uma força imensa a tivesse dominado, ela levanta do sofá, desliga o abajur e corre para o quarto.
Abre as gavetas com força, tira as primeiras peças íntimas que suas mãos encontram (uma calcinha preta e um sutiã rosado) e caminha de pés descalços até o banheiro.
Liga as luzes, despe-se da roupa que carregara o dia inteiro, deixando-a cair sob seus pés e olha-se no espelho. Pergunta-se se ainda seria bela o suficiente. Seu rosto esboça um sorriso fraco, mostrando um olhar doce e submisso perante seu reflexo.
Então ela tem daqueles impulsos que são difíceis de explicar. Apaga as luzes do banheiro e assim, no escuro, mesmo, liga o chuveiro. Há apenas uma fonte de claridade, vinda da pequena janela de vidro jateado, no lado oposto da peça. Assim ela começa o banho. Vê o vapor subindo lentamente, envolvendo seu corpo como uma seda branca, um véu transparente.
O sabonete escorrega em seu corpo com uma delicadeza que ela nunca sentira antes. A água escorre em seu rosto com a velocidade das lágrimas mais desesperadas.
A sensibilidade aflora em seu corpo. Sobe-lhe um nós na garganta, uma vontade de chorar e de gritar, e só não se atreve a tal porque sabe o quanto isso seria despropositado. Que motivo teria?
Sai do banho e passa a toalha áspera pelo corpo, veste a calcinha, cuidando para não deixa nenhum pelo pubiano aparecendo, e de repente sente-se tola. Sente como se estivesse vestindo-se para o amante mais esperado de sua vida, mas... ela ocupará a cama sozinha essa noite, assim como vinha fazendo nos últimos dez anos de sua vida.
Pega o secador em um armário e começa a secar seus cabelos ruivos. Os olhos fixam-se na imagem embaçada do espelho. Ali refletida está sua alma: sem definição, sem contorno, sem forma e conteúdo. Apenas algo que existe sem ter um porquê.
Sente as lágrimas vindo-lhe, enfim. A solidão lota o recinto, lota seu corpo. Chorando, escova os dentes. Engasga-se com o creme dental e acaba a escovação antes de sentir sua boca realmente limpa.
Ainda de pés descalços vai para seu quarto. Analisa-se no espelho que está em um canto, meio que escondido por um cabideiro, como se tivesse vergonha de se mostrar para sua dona, vergonha de refletir uma existência tão triste. Olha-se e nota o quanto na verdade foi descuidada na escolha da roupa de suas núpcias solitárias: "Uma peça de cada cor!?"
Vai até a gaveta e revira tudo, até achar o sutiã que combinava com a calcinha. Tira o que vestia e antes de colocar o outro, olha-se novamente no espelho. Hun, havia o exame de mamas, vira na televisão que era necessário fazê-lo sempre. Começa, então, na frente do espelho, a apalpar-se. Nada no sei esquerdo. Continua a apalpar-se. Nada no direito, felizmente. Mesmo assim, continua a tocar-se. Vê que no rápido exame seu corpo reagira, sua pele arrepiara.
Ali, de seios descobertos em frente ao espelho, prossegue a olhar-se como fizera rapidamente no banheiro. Sim, definitivamente ainda era bonita. Seus olhos castanhos ainda emitiam um brilho de vivacidade e de malícia, sua boca ainda arqueava-se ainda em sorrisos provocadores. Seu corpo não continuava como há quinze anos atrás, é verdade, ficara um pouco mais gorda, mas continuava nas proporções ideais para uma mulher de sua idade.
Sente então uma necessidade de ficar nua completamente e sem pudor. Se em quarenta e cinco anos não aprendera a conviver com seu corpo e não entendia sua alma, como ainda vivia? Precisa ficar nua, e fica. Tira a calcinha e atira-a na maçaneta da porta (em qualquer outro dia ela teria se censurado por esse ato pouco higiênico).
Lembra-se do falecido marido, único homem a quem se entregara, mas que já não estava mais ali para aquecê-la em noites frias. Eles haviam se envolvido em um acidente de carro, dez anos atrás. Ela, de cinto, sofrera apenas um corte no joelho, onde ficou uma cicatriz em forma de sorriso, que ela fazia tudo para esconder. Ele, sem cinto, morrera na hora. Desde então apenas ela dorme na confortável cama de casal.
Deita-se, deixando seu corpo escorregar pela colcha colorida. Mais uma recordação lhe ocorre, mas essa tão dolorida que ela fez de tudo para esquecer novamente.
Sua mão esquerda começa a deslizar pelo corpo. Barriga, seios, pescoço, nuca. A outra estaciona entre suas pernas. Seus dedos com unhas sem pintura começam a fazer movimentos tímidos, calmos. Há muito tempo não fazia aquilo.
Sente que ainda vivia, que enfim não morrera no acidente e nem de tristeza e solidão.
Os movimentos da mão direita ficam um pouco mais rápidos e ela sente a auréola de seus seios perceberem o estímulo.
Neste momento ela faz aquilo por dois sentimentos antagônicos: a vontade de satisfazer seu corpo e a necessidade de se humilhar, pois sim, ela faz isso em frente ao espelho apenas para ver seu rosto contorcido de prazer chorar. Chorar de saudade do marido e de vergonha, como se ele ali estivesse a olhando de forma acusadora. Sem entender a si mesma, ela resolve humilhar seus fantasmas, também. A culpa era dele se ela estava sozinha. Ele a abandonou e ela precisa prová-lo que não sentia mais sua falta.
Masturba-se agora com mais velocidade, com mais força, violência, até. Quer inflingir em seu corpo toda a sua angústia e desespero.
É nesse momento que a porta se abre. Ela vê, espantada, o rosto de seu filho, de dezessete anos ,surgir pela fresta da porta.
-Mãe, eu cheguei - ele diz, milésimo antes de olhar para dentro do quarto.
Os olhos dele fixam-se, espantados, na estranha e inesperada figura que se contorcia na cama. Não entende de primeiro o que se passa, mas assim que seu cérebro processa o estranho espetáculo, um soluço escapa-lhe pela garganta. Ele dá um passo para trás e fecha a porta com uma batida forte. Caminha a passos largos para seu quarto e, com mais força ainda, bate mais essa porta.
Ela fica ali, estática na cama. As pernas ainda levantadas, a mão ainda sobre suas intimidades. Era como se qualquer movimento fosse fazer com que ela percebesse que o que acabara de se passar tinha sido real.
Mas assim que baixa as pernas e cobre-se instintivamente, notou que sua atitude e seus sentimentos não eram o que esperava. Ela não sente vergonha. Sente raiva. O que ela vira de relance nos olhos de seu filho não seria a mesma repreensão que ela imaginava ver nos olhos do fantasma de seu marido? Que culpa tinha ela de ainda sentir desejo, de ainda estar viva?
Desde a morte de seu marido, sentiu-se consciente do que era. Consciente de sua existência.
Então faz algo que não se julgava capaz. Descobre-se novamente e recomeça a masturbar-se. Exagera em seu prazer, emite gritos que não se julgava mais capaz de dar, com a cruel esperança que seu filho escutasse.
Agora ele tinha que entender que ela não era apenas aquela que lhe sustentava e cuidava. Ela tinha também que cuidar de si.
Os movimentos mais rápidos, os gemidos mais altos.
É essa a maneira que ela tem de mostrar ao mundo que sim, ela iria mudar. Deixaria seu altruísmo de lado. Nesse momento é o mais egoísta que pode. Não pensa no filho, no que ele sente nesse momento. Ela quer o direito de suspirar de êxtase, e não só de cansaço.
A partir do próximo fim de semana iria começar a sair, ir em festas com suas amigas, aproveitar o resto de beleza que ainda lhe restava. Mudaria. Era necessário.
O último grito foi seguido por um silêncio que a assustou. Cobre-se novamente, sentindo o rubor subindo suas faces e confundindo-se com seus cabelos ruivos. O que fizera, afinal? O que deveria fazer no outro dia? Não queria essas respostas.
Talvez elas nem existissem.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Sobre o Amargor Matutino

“Mas, hey, mãe, alguma coisa ficou pra trás...

Antigamente eu sabia exatamente o que fazer”


Por mais agradável que tenha sido a noite, a manhã é sempre amarga. Essa é uma constatação bem óbvia, na verdade. É sempre assim. Você acorda, às vezes de bom humor, às vezes não, olha-se no espelho, vê seu rosto desconfigurado pelo sono e, dependendo do seu humor, sorri. Escova os dentes, afinal tem que prezar pelo sorriso sempre belo, por mais forçado que ele possa ser, e lava o rosto. Então vem o amargor. Por mais doce que seja o café, o suco, a fruta, sempre sentirá o amargo causado pela doçura do creme dental, na primeira mordida, no primeiro gole. Não deveria ser assim, mas é. O gosto bom do novo dia dura tão pouco. Assim é a vida. Iludimo-nos por uma doçura tênue e esquecemos que o amargor logo virá. Sempre vem! Mas nessas manhãs é bom saber que logo nosso paladar voltará ao normal. Os gostos bons acabarão se sobressaindo! Afinal talvez os amargores da vida sejam necessários pra que possamos continuar sorrindo.


“Mas, hey, mãe, por mais que a gente cresça

há sempre alguma coisa que a gente não consegue entender.”

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Ele, 29, Ela, 61

Ele, vinte e nove anos e oito rugas cortando-lhe a face.
Ela, sessenta e um anos e três diferentes tipos de creme facial na necessaire.
Ele, roncando com a cabeça encostada na poltrona de couro rasgada em um ônibus que sacolejava em uma estrada de terra.
Ela, sentada numa mesinha de metal em uma lancheria suja de rodoviária, tomando cerveja quente.
Ele, com o orgulho ferido.
E Ela não tendo do que se orgulhar.

O chamaremos pelo nome artístico, Palhaço Maroto, embora ele o deteste
A chamaremos de Avó, pois é esse o papel que ela emprega nesse momento.

Maroto volta pra casa, depois de oito anos longe. Como já disse esse prolixo narrador, Ele traz consigo oito rugas, e mais nenhuma causada por um eventual sorriso. Já não sorri há muito tempo, pelo menos não com vontade. Ele retorna para o interior, para o lugar que jurou que nunca mais pisaria, quando brigou com seu pai. Maroto viajou para a cidade grande, onde acabou por ver-se passando fome. Esmolou e com o dons administrativos que Deus lhe negou, resolveu abrir seu próprio negócio: divertir as pessoas. Para isso comprou três bolinhas coloridas e dois tons de maquiagem facial, e desde então virou malabarista de rua. As moedas que raramente ganhava nos semáforos não lhe compravam nem pão suficiente, nem dignidade. Morou embaixo de uma ponte por alguns meses, até fazer amizade com outro malabarista que lhe ofereceu um teto decente: um barraco de compensado com telhado de folhas de zinco, em uma favela afastada, e ele considerou isso um progresso. E assim Ele viveu por oito anos até o seu amigo morrer, atropelado por um motociclista. Maroto viu-se novamente passando fome. E por isso agora Ele volta.

Avó espera os netos na rodoviária. Netos, estes, que são sua única razão de viver. Não fosse por eles, Ela já teria tomado vários daqueles comprimidos de tarja preta que ocupam uma gaveta no seu quarto, afinal nem em Deus ela acredita mais, mas ela não quer envergonhar os netos. Os filhos, destes já nem lembra. São tratados apenas como mais um móvel dentro da casa. Interesseiros são esses filhos que a respeitam apenas por questões financeiras! Ela os repudiava, talvez pelas lembranças que lhe trazem. São a cara do pai, um homem grosseiro que durante a gravidez do último filho, a bateu. Esse homem tivera várias amantes e, não mais que de repente, foi misteriosamente morto a tiros num bar vazio, numa noite fria.

Maroto e Avó não se conhecem. Ainda.

Mas agora o ônibus já chegou na rodoviária e Maroto desce as escadas ainda cambaleante de sono e tirando remelas dos olhos. Ele não está caracterizado. Traz em si uma roupa meio suja pelas 17 horas de viagem e, é desnecessário dizer, rasgada pelo longo tempo de uso. Maroto sente-se mal, inclusive fisicamente. Traz a sensação de que as nádegas estão molhadas de suor, na melhor das hipóteses. Maroto vai ao guichê nº 5 e é surpreendido ao saber que o preço da passagem aumentara substancialmente, e que ele não conseguiria pagar com o pouco que tinha. Decidiu que pela última vez em sua vida iria se caracterizar novamente. Vai ao banheiro da rodoviária e troca-se com pressa, mas não sem antes sujar mais o já tão imundo vaso sanitário. Olha no relógio e nota que tem 20 minutos para conseguir os seis reais que lhe faltam, e isso lhe parece dificílimo. Então ele olhou para dentro de uma das lancherias e viu uma senhora parada. Até parecia sua finada mãe, não fossem os anéis e colares brilhantes que trazia consigo. Ela parecia a única capaz de lhe dar uma esmola que não fossem meras moedas.

Avó viu o Palhaço ao longe. Ele a olhara e se agora se dirigia à entrada da lancheria, e no momento que ele foi rapidamente ocultado por um pilar, Ela aproveitou para tirar dois dos seus anéis e colocar no bolso, para diminuir o prejuízo, caso fosse um assalto.

Ele chegou na frente dela, tirou o chapéu, fez uma reverência e começou, ali mesmo, a fazer malabarismos. Nem uma palavra, nenhum som. Mas por um breve momento ela olhou, com seus olhos de azul safira, nos olhos dele e viu que eram tristes, embora a boca sorridente mostrando dentes tortos e amarelados lhe dissesse o contrário.

O dono da lancheria, ao ver a cena, temeu perder tão distinta cliente, caso a velha se assustasse, e, aos empurrões, tirou Maroto do estabelecimento. Depois o gordo microempresário voltou na mesa para desculpar-se com Avó, mas ela não lhe deu ouvidos. Deixou uma nota na mesa e saiu correndo na velocidade que suas pernas cheias de estrias permitiam, atrás do palhaço.

Maroto desistira após a investida do gordo dono do buteco. Resolvera que iria dormir na rodoviária e fazer seu show no outro dia, quando esta estivesse bem movimentada. Por isso agora ele está a trocar a roupa, tirando a roupa de trabalho e colocando aquela que lhe serve de traje de gala e de pano de chão.

Foi nesse momento que Avó entrou no banheiro...

À princípio Ele não a viu. Ela, sim, o viu. Viu e relembrou sua juventude, o prazer que apenas uma vez sentira, antes do casamento. Sim, fora apenas uma vez, ela lembrava bem. Fora uma moça à frente de seu tempo. Transara antes do casamento com aquele que viria a ser seu marido. Ele a fez sentir coisas que jamais sentira, nem quando brincava consigo mesma nas tardes frias, durante a adolescência. Sim, fora aquele único dia de prazer que fizera ela se apaixonar por aquele homem horrível. Nunca mais uma transa deles seria tão boa. Na lua-de-mel ele já mostrou que jamais voltaria a ser o amante carinhoso e delicado que havia sido uma vez. Ele era promíscuo e violento. À princípio ela achara exótico, mas até mesmo o exótico torna-se nojento com a rotina. Mas era naquela sua primeira transa que Avó lembrava agora.

Maroto assustou-se ao ver a velha parada atrás de si. Sua nudez, sua vergonha exposta à uma desconhecida. Ele por um momento lembrou-se de sua primeira transa, também. Fora no início de sua adolescência. Seu pai, aquele homem repugnante a quem Ele agora iria rebaixar-se e pedir ajuda o levara à uma dessas casas em que o dinheiro faz o prazer, para ter certeza que seu filho não era um boiola. Seu pai escolhera a mulher com quem Ele deitaria. Não era a mais bonita, nem a mais delicada. Era a mais fogosa. Seu pai conhecia muito bem todas as mulheres daquele local para saber muito bem com qual seu filho deveria deitar. E escolhera pessimamente. A mulher deveria ter uns trinta anos a mais que Maroto e fora fogosa demais, a ponto de assustar o rapaz. Durante toda a sua vida ele lembraria como o prazer havia sido substituído pelo medo, naquela noite. Lembrou também do rosto de sua mãe ao ver ele e o pai chegando em casa, ambos com cheiro de estábulos e mulheres que usavam perfumes para disfarçar o cheiro de vários amantes numa só noite.

Naquele banheiro Maroto reparou que Avó era muito parecida fisicamente com sua primeira mulher. Avó reparou que Maroto era muito parecido fisicamente com seu marido, aquele em que por uma noite amara, durante a juventude.

Não houve nem sequer uma frase. Avó se perguntaria mais tarde o que a levara a adiantar-se para aquele corpo nu, aquele rosto pintado e sem expressão, que vira apenas uma vez em sua vida, nem três minutos antes. As mãos enrugadas deslizaram pelo corpo não tão formoso do palhaço. Ele, assustado, viu uma chance de provar que não tinha medo da experiência que essas mulheres mais velhas têm.

Despiu Avó com as mãos trêmulas, e nem por um momento o fato de estar prestes a transar com uma velha desconhecida num banheiro público pareceu-lhe estranho. Estava acostumado com a promiscuidade da vida das pessoas que vivem na rua.

Eles transaram ali mesmo, sem nem um porquê. Os pés descalços pisavam nas sujidades alheias no chão do banheiro público. O espelho rachado na parede refletia rostos de desconhecidos que por um momento se amavam. O prazer das recordações. O calor vindo do frio dos azulejos. As roupas jogadas sobre uma poça de urina. Tudo parecia dar um ar irreal na cena. Aquilo obviamente era um sonho dos dois, algo impossível de estar acontecendo.

As mãos de maroto passavam pelo corpo flácido da Avó. As mãos da Avó passavam pelo corpo rígido de Maroto.

Então acabou. Sim, rápido. Não deve ter durado mais de dez minutos, mas certamente os dois haviam chegado ao êxtase. Ela vestiu suas roupas rapidamente, mesmo sentido que a urina do chão agora estava nas suas costas. Ele ficou ali, sem saber o que fazer. Virou-se para o espelho e viu seu rosto, sua maquiagem de palhaço borrada. Ele sentiu que essa senhora poderia ser a salvação de sua vida.

Enquanto isso Avó acabava de calçar suas sandálias. Sentiu então um volume nos bolsos. Os anéis. Sentiu também que poderia ser a salvação da vida desse rapaz, e talvez ele da sua, mas tinha vergonha de lhe dizer isso.

Num gesto de extrema bondade, talvez, ou de vergonha por ter desfrutado de um corpo que não deveria jamais ter lhe pertencido, Ela pôs os anéis no bolso da calça de Maroto. Saiu correndo porta afora, com vergonha de si mesma, uma lágrima borrando-lhe a fina maquilagem. Teria que arrumar uma desculpa para não ter esperado o horário do ônibus dos netos. Diria, talvez, que se sentira indisposta pela cerveja quente, ou algo assim.

Maroto vestiu-se. Na perna esquerda da calça uma mancha escura que ele constatou pelo cheiro, ser merda. Limpou seu rosto da pintura que escondera a sua face da velha amante e saiu do banheiro. Nos primeiros passos fora dali foi abordado por um policial. Este vira uma velha saindo chorando do banheiro masculino e tirou a conclusão de que fora assaltado. Apenas com as palavras “Parado, Vagabundo”, o guarda atirou Maroto contra a parede, o rosto dele ao lado da plaquinha apontado para o Ponto de Táxi, e começou a revistá-lo. Não foi difícil achar os anéis no bolso. Deu um soco nas costelas do meliante e só disse um “Tá preso, filho da puta”. Maroto ao ver os anéis na mão do policial assustou-se, como seria de se esperar. O instinto fez com que empurrasse o policial e saísse correndo. Não devemos chamá-lo de burro, pois sabemos que os animais têm muito desses atos inesperados.

Também não julguemos o policial que desferiu três tiros nas costas de Maroto. Ele estava já a um passo de perder seu emprego, por irresponsabilidades anteriores. Ele tinha uma mulher e filhos para alimentar. Se a velha desse queixa do sumiço dos anéis que pareciam de tanto valor e ele tivesse que confessar que deixara o meliante escapar, certamente seriam estas suas últimas palavras no emprego.

Maroto bateu com o rosto numa lata de lixo, e depois caiu no chão. Um pouco da maquiagem que não fora bem limpa, atrás da orelha, ficou suja com sangue. Morreu sem ter que se rebaixar ao seu pai, ao menos.

Avó, meses depois, tomou vários daqueles comprimidos de tarja preta que ocupavam uma gaveta no quarto. Peço desculpas àqueles que ainda queriam ver algum romantismo nesse conto. Não o fez por querer morrer junto com aquele que lhe relembrara o que era o amor, nem tampouco por peso na consciência. Ela se matou ao ver um de seus netos padecer pelo consumo de cocaína e ver que o outro neto casara-se, fora viver no exterior e não lhe escrevera um postal, lhe dera uma ligação sequer por meses. Sentira-se inútil.

A morte lhes salvara de uma existência triste, talvez. Talvez eles pudessem ter salvado um da existência triste do outro. Mas de que adianta divagar sobre isso agora?

Assim é a vida. Assim é a morte.


quinta-feira, 10 de julho de 2008

Um Cego com Espelho

Eu tenho um amigo que diz que sou frio.
E eu me flagrei analisando a minha vida de forma tão fria, que acabei por acreditar que esse meu amigo estava certo.
Depois parei e comecei a refletir.
Cheguei à conclusão de que não, não sou frio! A verdade é que às vezes sou tomado de uma cegueira sentimental. É um marasmo, um tédio, uma melancolia.
Por diversas vezes vivo os momentos que podem vir a ser os mais importantes da minha vida, mas não os sinto. Viver sem sentir, coisa triste. E me analisar dessa forma é mais triste ainda. Expor essa análise, então, chega a ser digno de pena.
Mas é verdade. Me olhei no espelho e vi uma pessoa cega.
Uma pessoa que deixou grandes amigos se afastarem e não fez nada.
E não sentiu nada.
Tenho medo de não saber valorizar os amigos que tenho agora, como não soube valorizar os que tive. Quero que com esses as coisas sejam diferentes... Eu quero ver, talvez pela primeira vez, ver sem nenhum grão de areia no olho.
São poucas as pessoas que fazem eu me sentir vivo. Meu novo grupo de amigos me faz sentir a vida. Eu tenho medo do dia da nossa separação que, embora ainda esteja muito longe, está mais próxima agora de que quando comecei a escrever esse texto. Não quero cometer os mesmos erros, mas tenho medo de que meus erros tornem-se vícios.
Talvez eu seja um "espantalho inútil aonde vieram pousar os passarinhos", e que não se acostumou com o canto deles. Eu gosto desse canto, mas como demonstrar?
Eu estou me sentindo morto, agora. Corro os olhos pela casa e tudo me parece triste. Eu não queria estar aqui. Eu queria estar com meu irmão. Saudade. Saudade me faz sentir vivo? Não! Faz eu me sentir longe de mim. Nesse momento o meu verdadeiro eu não está escrevendo isso, ele está lá com meu irmão. Meu irmão dorme. Eu queria dormir.
Dormir.
Dormir.
Dormir.
Não posso.

(Divagação inútil movida por três dias sem dormir direito)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Sobre Gnomos e a Solidão

Embora muitos digam que sim, ninguém tem uma idéia completamente formada sobre a Solidão, simplesmente porque ela não tem uma face clara para mostrar.
Há momentos em que a endeusamos, dizendo que é nos momentos em que estamos sós com nossa Solidão é que nos encontramos, e que são nessas horas em que a Criatividade resolve se unir a nós.
Há momentos, porém, em que a detestamos. Ela se torna, de uma hora para outra, em uma companheira inconveniente, vai conosco aonde não foi convidada. Está conosco mesmo quando estamos no meio de uma multidão de amigos. Está onde não deveria estar, por motivos que não deveriam existir.
Como já disse em algum texto anterior, a Solidão já dividiu apartamento comigo, de uma forma muito mais física e mundana quanto interpretaram alguns, mas mesmo assim, esteve presente.
Mas, não, nesse momento não me sinto só. Tenho amigos e tenho um amor a quem me apegar.
Porém são esses mesmos amigos que sentem o que senti outrora.
A Solidão pela falta de "uma pessoa", e não pela de "um monte de pessoas".
A presença de tantos sentimentos (tais como alegria, tristeza, euforia e calma) e numa sucessão tão rápida e desordenada deles, que é característica de amizades como a nossa, faz surgir a necessidade de outro sentimento...
O Amor...
Dizem que ele é um querubim gordinho e com bochechas rosadas. Duvido! Realmente, duvido!
O Amor deve ser um gnomo verde, de orelhinhas pontudas e com um cachimbo! Por que digo isso? Porque o Amor gosta de nos aprontar peças, das mais variadas, nos momentos mais inoportunos! Nem sempre ele é generoso como foi comigo, dessa vez. Vocês acham que um anjinho seria tão sacana assim? Não, né!?
Pois é à caça desse gnomo que estão esses meus amigos.
Sabem que o Amor traz um turbilhão de sentimentos que nenhuma droga consegue trazer. Sabem dos seus males, mas anseiam por seus benefícios. Eu lhes apóio nisso, mas... não sei como lhes dizer, mas por ter certo conhecimento sobre gnomos (Atualmente divido apartamento com dois: Lumpasiba e Mim Mesmo), sei de algumas coisinhas.
Gnomos são esquivos, escorregadios, manhosos! Não gostam de ser caçados, pois gostam de surpreender, não de serem surpreendidos. Eles não costumam estar nos lugares comuns, nem todos gostam de morar em gavetas ou nos vãos de geladeiras! Eles não escolhem momento pra lhe surgir à frente e lhes atirar um pó qualquer nos olhos.
Por isso, amigos, continuem procurando, mas não gastem muita energia nisso! Eu prometo que esse tal gnomo vai surgir pra vocês, e tenho quase certeza que não demorará muito! Ele fará uma armadilha e lhes fará perder uma aposta... depois, apenas deleite!

"(... ) e da terra verterá mel e leite."


Eu digo isso porque assim aconteceu comigo!
Lumpasiba, meu gnomo mais velho, me deve um favor. Farei ele intervir por vocês!
Mas antes que o Amor lhes bata à porta.... bebamos à sua saúde!

(Texto sem fins lucrativos, bobo e inacabado)

terça-feira, 10 de junho de 2008

A Formiga no Açucareiro

Tema: Insetos.
Fotografia: Formiga em um açucareiro.
Sentido Implícito: Auto-retrato do fotógrafo em questão, eu.

Estranha semelhança notei entre mim e essa formiga, assim que bati a foto acima para uma aula de Fotojornalismo.
Senti uma afeição tão grande pelo pobre animalzinho (que nem deve ter suspeitado de que era observado) que nem me atrevi a espantá-lo do meu açucareiro.
"Por quê? Te sentes pequeno como um inseto?", perguntar-me-ão os óbvios. Não é isso! Não me refiro à sensação de pequenez em relação ao mundo que me cerca, pois essa sensação é tão natural ao humano que não há necessidade que se gaste linhas e mais linhas com ela.
"Então sentes que carrega mais peso do que podes carregar?". Não! Não tenho do que reclamar, nesse sentido. O peso que carrego é ínfimo perto de outros que me cercam, então não é justo ocupar o meu tempo, e o de quem tiver paciência pra ler, falando sobre a louça suja ou a casa por varrer.
"Então onde está a semelhança?", indagarão, irritados.
A semelhança? Ah, ela está no fato de que, aparentemente, a formiga faz seu trabalho com satisfação. Ela sai para "desbravar" uma cozinha (suja), percorre um longo percurso e se depara com um pote de açucar. Se tivesse sentimentos (e quem me garante que não os tem?), essa formiga estaria no mínimo alegre! Encontrar em suas obrigações o que dá sentido a sua vida. Misturar deveres com paixões. Assim me sinto, nesse instante!
(...)
"Entrei na Facos, que Alegria..."
Após entrar na Universidade, deixei a Alegria fazer parte do meu cotidiano. Ela já tem as chaves do meu apartamento e não escolhe o "horário mais apropriado" pra chegar! Pode ser de manhã, tarde, noite ou até mesmo de madrugada. Ah, a Alegria é boêmia!
Às vezes o Tédio vem me visitar, entre as quatro paredes frias dessa sala. Fica pouco tempo, porém, pois se sente desconfortável e desnecessário.
A Solidão? Ah! Essa costumava dividir apartamento comigo, meses atrás! Ocupava com suas reflexões as noites de uma época já remota. Agora quando me visita, ela faz questão de aparecer com uma face nova, não mais tão exteriorizada. É uma solidão particular, que esbarra comigo em qualquer esquina, em qualquer lugar, embora eu esteja acompanhado, e não se demora por medo de ser notada!
Essas mudanças devo a um grupo de amigos que tem feito de cada dia meu uma experiência única, e não mais "apenas um dia como outro qualquer". Chega de experiências em escala industrial!
Ah, esses amigos, o "Açucar do meu Açucareiro", que encontrei num lugar onde prazeres e deveres se misturam... Ah, esses amigos que estão cada vez em maior número e, contraditoriamente, em maior profundidade também!
Estranha amizade, essa que criou laços mais fortes que os sanguíneos, que me diverte e que me faz pensar. Hoje sou a formiga no açucareiro!
(...)
-Ah, formiguinha que nem deve ter consciência de sua própria existência, aproveite o máximo o seu açucar, te empresto o meu açucareiro para isso! Eu estarei aqui, tentando aproveitar ao máximo os meus amigos, sem esquecer, como tu fazes, dos meus deveres... E se um dia eu acordar reclamando de tudo, me perdoe, pois é porque carrego comigo todas as imbecilidades características à minha espécie!


(Texto especialmente dedicado a Caren, Liana, Ananda, Bibs, Benaduce, João e Gian!)

domingo, 8 de junho de 2008

Sobre a Aspereza do Asfalto

As sombras agora são artificiais. O sol já se foi.
É tarde. É noite.
Ele caminha pelas ruas úmidas da chuva que ainda insiste em cair, uma chuvinha miúda, daquelas que só servem para fazer as pessoas baixarem as cabeças.
"As pessoas baixam as cabeças com medo que algumas gotas sem importância venham a cair nos seus olhos e lhes façam perder, por alguns segundos, a visão e um pouco da lucidez"
Mesmo pensando assim, também ele olha para baixo.
Provavelmente, quem o olhasse pensaria que ele não gostava de chuva... mas esses ignoram que um dos melhores momentos das suas últimas semanas fora vivido sob ela.
Mas não era nisso que ele pensa nesse momento. Pensamentos? Os pensamentos lhe fluem com uma rapidez que faria qualquer maratonista roer-se de inveja.
Ele lembra-se da época em que a lucidez era sua eterna companheira. Em que lugar eles teriam se separado? A lucidez já não era mais sua amiga. Partira para outros lados, à procura de um novo rapaz a quem ocupar com seus pensamentos fúteis. "Mas o que seriam pensamentos fúteis?" Ele já não sabe mais responder suas próprias perguntas, como conseguia fazer antigamente. Não seriam os seus pensamentos mais fúteis que os de qualquer rapaz que estivesse, nesse sábado chuvoso, assistindo Zorra Total? Pelo menos o outro ainda conseguiria emitir um risinho forçado. Este não consegue nem isso, pelo menos não nesse momento.
Um de seus amigos encontra alguns conhecidos na rua. Pelo rumo que a conversa toma, parece que vai demorar. O rapaz se encosta em uma parede, deixa-se deslizar por ela até que acaba sentando-se em seus próprios pés. Pede um cigarro àquela sua amiga que acaba de se sentar ao seu lado.
Ambos se entendem. As palavras às vezes os atrapalham um pouco, mas os pensamentos, ah, esses estão sempre em concordância.
Ele acende o cigarro e traga.
Solta a fumaça lentamente, mais espessa que o habitual, pois essa se mistura com o bafo quente que sai de sua boca na noite fria.
A chuva ainda não desistiu. Ela quer um pouco de nossa sanidade e pede: "Olhem para o alto!"
Pobre rapaz. Sem perceber ele atende ao pedido da chuva. Apenas levanta um pouco o olhar para ver as gotas contra a luz do poste, mas uma gota (poxa, apenas uma!) lhe cai no seu olho direito. Ele fecha os olhos rapidamente. A pálpebra espalha a gota pelo olho, para um dia torná-la lágrima.
Teria passado um segundo?
Sim, foi mais que um segundo.
Ele abre os olhos, porém nota que algo está diferente.
Estão todos ali! Nada mudou de cor! Nada mudou de lugar! (Ok, um carro deslocou-se um pouco no quarteirão, mas isso não é relevante!)
Porém as aparências de normalidade já não o enganam mais! Algo mudou! Mas onde?
Então ele vê o asfalto...
Seus pensamentos são transportados para aquele amontoado de pedrinhas coladas com pixe. O asfalto! O asfalto é seu espelho!
Então ele balbucia para a sua amiga as seguintes palavras:
"Nós somos como o asfalto!"
Se ela entendeu o sentido de imediato, ele não sabe dizer, mas mesmo tendo quase certeza que sim, que ela o havia entendido, ele prefere continuar a explicar sua mais nova e brilhante teoria.
"Visto de longe, parece liso. Liso como as águas. Mas visto de perto, bem perto, notamos sua aspereza."
Seus pensamentos seguem o mesmo rumo de suas palavras.
"'De perto, ninguém é certo', já ouvira alguém dizer, certa vez. O asfalto de longe parece liso, talvez com algum ou outro buraco, assim como os defeitos que não conseguimos esconder, mas mesmo assim, liso! Porém se nos ajoelharmos no asfalto, sentiremos as pedrinhas cravando na nossa carne. Sentiremos que, como o asfalto, também podemos machucar, embora nosso objetivo não seja esse. Também desgastamos, como o asfalto! Também temos a necessidade de chegar a algum lugar, como o asfalto. Somos todos asfalto, alguns mais fáceis de transitar, outros nem tanto, mas todos asfalto, puro e simples, à espera das pessoas que necessitam de nós."
A moça do lado fala algo, e ele ressente-se por não tê-la escutado. Sempre gosta de ouvi-la. Dá uma nova tragada no cigarro.
A conversa de seu amigo havia terminado.
Levanta-se.
"O que mudou?", pergunta-se mais uma vez, enquanto se afasta, com a sombra refletindo no asfalto frio.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O Mundo Quadrado


AVISO: Esse não é um texto para ser entendido, então, se compreendê-lo é seu objetivo, pare por aqui!

***

Sim! Colombo errou!
Sim! A NASA mentiu!
O mundo não tem a forma elipsoidal, como aprendemos desde as séries iniciais!
Ele é um cubo gigante! Ele é quadrado! Ele é agudo!
Um cubo: Seis faces. Oito vértices. Doze arestas.
É uma idéia difícil de ser compreendida, praticamente inútil de ser explicada, mas tentarei, sem compromissos, provar que o que digo é verdade!
Todas as formas arredondadas me levam a pensar num grande "plano torto". Embora antitético, esse termo tem algum sentido: em uma esfera (e até mesmo num sólido de forma elipsoidal, como afirmam ser a terra) é possível percorrer toda a sua superfície sem nenhum percalço. Por isso as bolas giram. As formas arredondadas emitem uma noção de igualdade, como as "mesas redondas". Agora me respondam: Onde está a igualdade no nosso mundo?
Talvez agora vocês entendam onde quero chegar:
Como sabiamente nos diz uma música famosíssima e com uma letra filosófica ao extremo, hoje em dia é só "Ado, a-ado, cada um no seu quadrado"
Citação tosca? Possivelmente! Mas ela exprime bem o que quero dizer.
Hoje as pessoas que estão na mesma face do cubo tendem a ignorar o que se passa na outra face! Embora sejam o mesmo sólido, as pessoas têm medo de atravessar as arestas invisíveis que nos separam do resto do mundo. O isolamento é auto-imposto, é algo natural! Pouco me importa o estado do outro lado do cubo, se o meu lado estiver em ordem (embora seja uma opinião burra, visto que a parte afeta o todo!)
Desse modo há três tipos de pessoas. As que se posicionam nas faces do cubo, em suas arestas ou em seus vértices.
São 6 as faces. Segundo a numerologia, o número 6 é relacionado à vontade de Liberdade. Logo: Aqueles que se posicionam nas faces necessitam de uma liberdade, de desapego às outras pessoas. Narcisismo, egoísmo e solidão. São essas as pessoas que não prestam atenção às outras faces.
São 8 os vértices. Numerologicamente falando, o 8 é o número da Justiça! Justiça deriva do ato de julgar. Para ser justo é necessário ter conhecimento total dos fatos. Porém como uma pessoa que se posiciona em um lugar em que vê apenas metade da superfície do todo conseguiria ser justa? Os juízes estão nos vértices. Mas ainda falta o juízo.
São 12 as arestas. A divisão entre duas faces. A indecisão, o medo, o desiquilíbrio. São esses ainda mais numerosos que os anteriores, por causas desconhecidas.
De qualquer forma as pessoas não ficam sempre no mesmo lugar. Durante o seu dia elas mudam constantemente de posição, são vértices, faces e arestas de si mesmos!
O mundo é quadrado.
Os pensamentos são quadrados e antiquados.
Esse texto é quadrado. Desigual. Não serão todos que compreenderão. Provavelmente só eu o compreenda. Por isso não faz mais sentido eu continuar a escrevê-lo. Vou me recolher com meus pensamentos, que embora eu esteja sóbrio, mais parecem com os de um bêbado na sarjeta.

(Texto postado no Blog da turma: "Primeiro Ponto")

terça-feira, 3 de junho de 2008

UTI Mental II

Estou curado!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

UTI Mental

É um momento estranho, esse.
Sinto-me doente, mas não da doença física, das que estão descritas minuciosamente nas enciclopédias de medicina... É uma doença mental, que me acometeu de uma hora para outra.
Talvez nem seja uma doença! Talvez tenha sido um acidente, pois foi algo repentino e inesperado.
O fato é que agora estou em uma UTI mental, e minha sanidade está em coma.
O que me aflige não tem muita lógica, não tem explicação. O agente não é vírus, não é bactéria. O vetor não é mosquito, não é rato. A vítima sou eu, e é só isso que se sabe até agora. Talvez seja só isso que venham a saber.
Tenho medo que minha doença se alastre, afete os que estão à minha volta. Mas não tenho como afastá-los, e não quero! Eles são meus doutores, minhas visitas e os meus colegas de UTI. São tudo ao mesmo tempo, e eu os agradeço por isso.
Só queria melhorar. Mas a cura ainda não é conhecida...
Nem a causa. A causa... talvez eu tenha sido contagiado pelo ar. Mas não pelos meios naturais... talvez eu tenha escutado algumas palavras perdidas que tenham afetado meu inconsciente e tenham me atirado nessa cama, com máquinas me mantendo vivo.
Vida. Amanhã talvez eu a tenha de volta. Pelo menos assim espero.
Agora vou voltar pro meu repouso e comer por sondas. Absorver tudo que me for dito hoje, no meu coma. E um dia, quando minha consciência voltar, saberei usá-las corretamente. Ou não.

Silêncio!

"Arrependo-me muitas vezes de ter falado; nunca de ter silenciado. " (Ciro)